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☠ Quem Tem Medo do Lobo Mau? ☠


Olá pessoal! Devem ter sentido falta dos meus textos do Literatura em Movimento... pois bem, resolvi voltar a ativa de novo no projeto, e consegui postar o desse mês graças a um prazo estendido (ainda bem) hahaha.

Bom, para quem ainda não conhece, Literatura em Movimento é um projeto de blogagem coletiva organizado pelos blogs Café com Livro, da Helena Dias, Da Literatura, da Ana Karina e Sacudindo as Palavras, da Denise Valente. Caso você queira saber de maiores detalhes, clique aqui. E para maiores detalhes dos 3 temas desse mês clique aqui. Pois vou focar só no meu tema escolhido. Vamos lá?

Meu escolhi foi o...

TEMA 3 - QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

Claro que não poderíamos deixar de unir essas duas datas lindas, não é mesmo?! Quem nunca contou histórias de terror? Quem nunca segurou o medo de algo para se fazer de corajoso na frente dos amigos? Lembrando da infância e dos medos bobos (ou não) de quando éramos pequeninos, queremos saber: qual(is) o(s) mito(s) que mais lhe causavam medo quando criança? Não precisar ser necessariamente uma lenda, pode ser qualquer coisa que te fazia olhar embaixo da cama e dentro do armário antes de ir dormir. 

Então é isso: Qual(is) o(s) mito(s) que mais lhe causavam medo quando criança?




Escolhi esse tema pois minha infância foi marcada por climas e situações esquisitas. Desde cedo, tive gosto pelo cinema e principalmente pelo gênero terror. Vi inúmeros filmes nesse estilo ainda criança, como;  A casa maldita, A hora do Espanto, A casa da colina, Hellraiser... e por aí vai. O terror sempre foi algo que me chamava a atenção. Era como um desafio, eu acho. Talvez eu me sentisse mais forte ou mais adulta por assistir filmes que a maioria das crianças tinham pesadelos (isso não quer dizer que eu não tinha haha) Não sei explicar. Apenas sentia.
Tive uma infância complicada e com problemas familiares e sempre me refugiei no faz de conta. Esses filmes, ao mesmo tempo de davam medo e ao mesmo tempo me proporcionavam sensação de adrenalina. Me imaginava vivendo uma situação daquelas, derrotando monstros, fantasmas e demônios. Mas na hora de dormir eu voltava pra realidade e estava na minha caminha quentinha onde estava segura (mas não dos pesadelos haha).
Logo então, percebi que eu tinha...  talvez um dom. Eu pressentia quando algo ruim iria acontecer ou quando alguém estava chegando. Era muito louco mas eu confiava plenamente nessa minha intuição.
Mas o que me deixava realmente atormentada, não era meus pressentimentos e sim outra peculiaridade que acontecia comigo. Eu ouvia vozes. Sabrina, mas que infância é essa? Pois é... cada um tem a sua... Mas garanto que não fui a única viver esse tipo "situação" rs. Só que eu estava habituada a isso e considerava normal. As vozes, (que eu escutava em minha cabeça ou ao pé do ouvido) me diziam coisas horríveis (isso é sério, quem me conhece bem, sabe. Contei pra pouquíssimas pessoas e agora pra vocês). Graças a Deus não ouço mais. Mas, sempre senti um clima sombrio pairando no ar durante minha infância em qualquer casa que eu fosse morar.
Entre uma delas, havia uma em especial, que foi num período onde eu estava bem fissurada em filmes de horror. Ela possuía uma rede num corredor que dava para os fundos e lá era muito escuro a noite. Ficava só a luz da cozinha iluminando. Eu (não sei porquê raios) gostava de me balançar ali a noite. Era como se eu quisesse vencer o meu medo de escuro. Que até hoje tenho rs. Eu olhava fixamente para escuridão, sem explicação, e torcia para não ter nada. Até, que as vezes eu achava que via (ou via) algo se mexer na escuridão, e era aí que eu parecia uma atleta de salto em vara kkkk. Dava um pulo que já chegava na cozinha em segundos.
E foi assim que acontecia em muitas outras noites. A menina aqui nunca desistindo de vencer o medo e desmascarar essa sensação de ser observada. Era sinistro, eu sei. Mas era minha infância e é essa que tenho pra dividir com vocês. E por isso também fiz um conto bem pequenininho inspirado nas coisas que descrevi. Espero que consigam ler até o fim, já tá bem longa a postagem, prometo ser curta haha.


O OBSERVADOR 



Clic. 
O botão perto da tela é apertado pelos dedos gelados da menina, desligando a TV. A tela aquecida por muitas horas assistidas de filmes de horror. No quarto, sua irmã come alguma porcaria e escreve em um diário da moda. Seus pais estão na cozinha conversando banalidades, como o preço do aluguel, ou da conta de luz. A garota tenta voltar a normalidade, como sempre faz quando termina de assistir a um filme como aqueles. Finge que não está com medo e que nada pode assustá-la. 
Passa pela mãe, e depois pela porta aberta da cozinha, deitando-se na rede, de frente para o cômodo. Observa a mãe e o padrasto terminarem a conversa, e enquanto isso, concentra-se no vai e vem da rede, para frente e para trás em meio aos seus pensamentos nebulosos. Do seu lado esquerdo consegue ver toda a extensão do quintal até o portão. O cão está em algum lugar, debaixo de algum carro da oficina improvisada do padrasto. Ele então resolve ir até o quintal, terminar um conserto em atraso. Está tarde, mas vai receber bem se entregar o veículo pela manhã. A mãe belisca um pão e sai da cozinha para a sala, deixando a menina em sua rede, apenas os pensamentos lhe fazendo companhia. A sua direita, está o lado em que evita olhar. Mas seus olhos são atraídos toda a vez que está sozinha. Não consegue enxergar nada. É a parte de trás da casa. Não tem nada além de terra, algumas ripas de madeira, tijolo e plantas penduradas no muro, que balançam com o vento da noite, tomando formas bizarras. Aquilo precisa de uma reforma, ela pensa para se distrair.
Não olhe para lá, sua idiota...
Mas os olhos não obedecem. Eles até se esbugalham, se esforçam para acostumar-se com a escuridão e enxergar a forma de cada coisa ali. Nada...
Ufa...
Olhe de novo! Apita sua consciência. Um, dez, quinze, vinte minutos olhando para a escuridão. Tentando vencê-la, confronta-la. Até que vem o estalo. O corpo da menina enrijece. Cerra os olhos em busca de alguma coisa. E então ele passa. Quase imperceptível, tão rápido quanto as batidas do seu coração naquele momento. Não sabe quem é ou o que é, mas há a certeza de que existe alguma coisa. Um vulto, uma sombra, alguém...
Não mais poucos segundos depois, seus pés se moveram por vontade própria, pulando da rede em um impulso até a porta da cozinha, deixando para trás a sua mente alucinada. 
Sentou-se no sofá da sala, ao lado da mãe, fingindo naturalidade. A mãe troca de canal distraidamente.
- Olha mãe, aquele filme que eu queria ver! - ela avisa, quase se esquecendo do episódio anterior.
- Mas é de terror, filha. Não gosto dessas coisas cheias de sangue!
- Mas eu gosto mãe, deixa aí.
A mãe então assiste ao filme, com a garota ao lado, empolgada com a história.
Do lado de fora, ele sonda a menina por uma brecha da janela. 
Ela parece destemida, olhando para a tela da TV. Ele ri. Ri de como a menina acreditava ser a observadora, enquanto na verdade estava sendo observada. Sempre. Quase conseguiu dessa vez. O medo ri, e vai embora. 
- Até logo, menina. 


Então pessoal, gostaram? Esse conto é uma expressão mesmo da minha infância, nada ao pé da letra, mas sim, uma inspiração. Espero que tenham gostado. Até a próxima! Beijos da Sa!

Resenha Especial: Um Passo em Falso



Um conto de
Helena Dias


Autora: Helena Dias
Editora: Ebook Amazon
Páginas: 5 | Ano: 2015

[Nota Pessoal]

Oi pessoal!! Como estão?
Hoje vim trazer pra vocês uma resenha diferente, que vocês não estão acostumados a ver por aí, pelo menos não com tanta frequência. É uma resenha de um conto.  
Como assim de um conto, Sa? Dá pra resenhar um conto curto? Claro que dá!! Ainda mais se for especial como esse e despertar inúmeras sensações no leitor. Eu conheço a linda Helena Dias, autora do conto, e gosto muito, mas muito mesmo da escrita dela, gente! Ela sabe fisgar o leitor com um bom suspense. E nesse conto não foi diferente. 
Nele temos a Gi, que parece ser uma boa menina, uma garota estudiosa, no entanto, são só suposições pois não dá tempo de conhecermos tanto dela. De qualquer maneira, ela consegue a afeição do leitor logo de início.
A história se passa em uma dia, na verdade, em uma manhã. Tudo corria bem, era um dia comum como todos os outros, ou pelo menos ela esperava que fosse. Gi iria para escola, completaria sua rotina, mas... alguma coisa não ocorreria como o habitual.


O que está para acontecer, pode até ser esperado pelo o leitor que ler as primeiras frases, mas não o que virá depois disso. O final pode deixar algumas pontas soltas para que o leitor as junte, mas confesso que terminei com um ponto de interrogação e mil possibilidades do desfecho rs. Eu não li apenas uma vez, então posso assegurar que, se você é do tipo que mergulha numa história desesperadamente, não vai captar todas as coisas de primeira, por que estará tão envolvido, que se ater aos detalhes ficará em segundo plano. Acho que isso é arte da autora! Hahaha. Somente na terceira vez, eu notei alguns pequenos detalhes que faziam toda a diferença.
Eu não posso contar muito, se não estrago a surpresa, não é? O que posso dizer, é que corram para o esse LINK na Amazon e garanta sua leitura!! Super recomendo. E pra quem ler, não esqueçam de avaliar, okay? Okay rs.

Beijos da Sa.


Quem conta um conto, aumenta um ponto #6


Divagações
Susana Silva


"Quantas vezes eu pensei... Será que vale a pena viver? Será que existe o lado de lá? E será que lá é melhor e aqui é que é suposto ser o inferno? Será que a maldade é o melhor a fazer no mundo? Costuma-se dizer que "vaso ruim" não quebra" e que os bons vão antes dos maus. Por que será? Às vezes sinto-me... às vezes, não. Quase sempre me sinto impotente neste mundo que é uma selva! Não... se o fosse, seria melhor. Os animais selvagens é que devem estar certos. Os errados devemos ser nós: os humanos. Sei que nem todos os humanos estão no mesmo saco, mas, infelizmente, esses são um numero ínfimo no meio desta imensidão que é o universo."

Quem conta um conto, aumenta um ponto #5


Tragédia anunciada

Márcio Muniz


João da Silva, brasileiro do interior, homem de hábitos simples, de princípios, daqueles que acorda antes do sol para a lida diária. Lavrador de um pequeno pedaço de chão que herdou dos pais. Aos 18 anos perdeu o pai, mas ao mesmo tempo, conheceu numa festinha da igreja, Maria das Dores, uma menina de 16 anos que vestia-se como menina, em seu vestido xadrez rodado ou mesmo nas "maria chiquinhas" que ornamentavam seus cabelos. Porém o sorriso e o olhar que ela naquele domingo, insistia em ofertar a João, davam-lhe a sensação de que ela tinha muito mais idade. Parecia que o tempo dentro dela havia passado mais depressa do que com seu corpo. Todavia, o tanto que João ficara cismado com aqueles olhares, ficara também enamorado.
Ele tímido, não sabia como responder a ela que sentia o mesmo. Durante a semana, em cada pequeno intervalo que fazia durante o trabalho, era nela que ele pensava.
No domingo seguinte, seus olhos se reencontraram durante a missa, dessa vez contudo, os olhares foram retribuídos por ele, cujo coração já se encontrava laçado. João sabia muito bem como proceder, cumpriu então o papel que a ele cabia, foi até o pai dela, que tinha a fama de ser muito rígido para com as filhas e pediu autorização para corteja-la. O pai gostou da atitude do rapaz, via futuro naquilo e deu então sua bênção. João era quieto, respeitador e as vezes não entendia de onde vinha aquele fogo todo de Maria das Dores. Ele segurou as pontas, várias foram as vezes em que ele chegou em casa empapado de suor, cheio de tremores e melado por conta dos carinhos de sua namorada.
Seis meses eles namoraram, João resistiu o quanto pode mas um dia o inevitável aconteceu, Das Dores, engravidou, seu pai a colocou para fora de casa, ela já tinha então 17 anos. Nenhuma outra atitude se podia esperar por parte de João da Silva senão, assumi-la de vez e ao filho. Por ela ser menor de idade não puderam se casar, todavia, ele a levou para morar com ele. Sua mãe fora contra, dizia ela que Maria não tinha "modos" de moça direita, que era também preguiçosa e que vivia a devanear, perdia-se a folhear revistas com artistas de TV e cinema, querendo uma vida e um luxo que ali nunca lhe caberiam.
A criança nasceu, um menino grande e forte, a contragosto dele, Maria o batizou como Richard Gere, em homenagem aquele ator de "Uma linda mulher", filme que ela tanto gostava.
João trabalhava de sol a sol, a vida era dura, sua mãe adoentada faleceu um ano após o nascimento do neto. Maria das Dores reclamava sempre, dizia que não havia nascido para aquela vida, que João não tinha ambição, sonhos. Afinal, agora lhe cabiam todas as tarefas domésticas, além da de cuidar do filho. João não tinha tempo para ser romântico e nem sabia sê-lo, aquela era a vida que ele conhecia, o ideal de um homem para com sua família para ele, era trabalhar para prover-lhes o sustento.
Maria das Dores cada vez mais impaciente, menos esposa e mãe, sua cabeça mais distante e ausente. Aos cinco anos de idade, Richard ia pra escola pela primeira vez e essa ia ser mais uma tarefa que caberia a ela, leva-lo e busca-lo a pé por cerca de 1,5 km. Logo na primeira semana um homem a cavalo veio a lavoura chamar por João dizendo a ele, que sua esposa não tinha ido buscar o filho. Ele largou tudo e foi busca-lo, quando chegou em casa, nenhum sinal das roupas dela, nenhum bilhete, palavra alguma. Ela tinha partido, sem dar justificativas, sem qualquer consideração, tal qual um dono abandona um bicho de estimação em uma estrada deserta, ela os deixou para trás.
A vida continuava dura, a lida não dava tréguas, as questões práticas da sobrevivência o absorviam, João de modo pragmático não verteu lágrimas, não tinha tempo para se lamentar. Arrumou uma empregada que a custo conseguiu pagar para cuidar do menino e dos afazeres da casa e assim suas vidas prosseguiram. Richard já tinha 13 anos, tornou-se um menino calado mas de gênio difícil. João era um pai ausente das coisas do filho, sobrava-lhe carinho para com ele, mas faltava-lhe tempo e ele entendia isso como coisa normal, típico da vida que levavam. Ele precisava trabalhar, pôr de comer em casa, juntar dinheiro para poder mandar o menino pra faculdade, sonhava vê- lo doutor e esse sentimento o movia. Contudo, ele não acompanhava o crescimento do filho, suas dúvidas e angústias. Não estava lá quando ele passou a andar com uma turminha barra pesada,  não estava lá quando alguém lhe ofereceu um baseado ou depois quando lhe deram a chance de ganhar numa noite o que o pai levava seis meses para conseguir ganhar, só por transportar uma mercadoria. João não esteve presente quando o menino teve dúvidas sobre sexo, sobre que caminho seguir.
Mais a vida continuava, João por fora das coisas do filho, o filho cada vez mais perdido e desencontrado da vida do pai. Mal se viam, suas palavras mal passavam do limite dos cumprimentos, parca troca de olhares. Apesar de tudo, o filho mantinha respeito pelo pai, ainda que não concordasse em nada com a vida que levavam. Nisso, ele parecia com a mãe, sonhava em como um pássaro bater asas e ganhar o mundo e para tal, ele precisava de dinheiro. Os fretes ficaram cada vez mais frequentes, passou a praticar pequenos furtos. João nada disse quando ele apareceu em casa com um relógio novo ou com uma bicicleta da “onda”. Na verdade ele nem reparou direito, na sua cabeça talvez tenha inconscientemente imaginado que fosse de algum amigo, mas nem deu por si que não conhecia nenhum dos amigos do filho.
De repente começaram uns rumores sobre seu filho, uns assuntos que ele julgava impróprios e descabidos, mas enfim, uma pulga pousou atrás da sua orelha. João já abandonado pela mulher, começou a imaginar e se ver também falhando como pai, só não entendia o porquê. Ele trabalhava sem reclamar, sob sol ou chuva, sem escolher o que fazer ou como fazer, tudo por sua mulher, tudo por seu filho e isto não fôra o suficiente. João da Silva seguiu o filho, descobriu que ele estava usando drogas, traficando e praticando assaltos, apesar da confirmação, não disse nada, não sabia o que dizer. Foi para a birosca do Raimundo, pediu uma dose que virou numa golada rápida, pediu a segunda e desta vez, pediu para ele deixar a garrafa. Bebeu-a toda, lutando contra as lágrimas que pela primeira na vida lhe vieram aos olhos, acompanhado de um sentimento que ele nunca antes sentira. Uma sensação de incapacidade, de inutilidade que teimava em lhe bater no ombro. Foi para casa aos tropeções, chegou lá e viu o filho com a turminha na porta de casa, quis enfim tomar uma atitude, falar grosso com ele, botar aqueles desocupados para correr. O filho não aceitou ser chamado a atenção na frente dos “amigos”e reagiu às palavras do pai que lhe esbofeteou. Ato contínuo, em um perfeito comportamento de bando, os colegas do filho partiram para cima dele, o espancaram sem dó nem piedade. Ele apanhou demais, apanhou na cara que era coisa que seu pai sempre disse que não era para um homem. Caiu no chão, desistiu de lutar, foi chutado sem dó nem piedade, cuspiram sobre o corpo inerte e sujo de sangue dele que mal abria os olhos. Seu filho, bem, seu filho não disse nada, calou-se, assentiu.
Depois se afastaram deixando-o ali caído, na sarjeta, coberto de sangue, saliva e vergonha. Não entendia como a vida podia ser tão cruel para com ele. Não entendia como um homem de bem, de princípios e trabalhador pudesse ficar a mercê de um bando de vagabundos, humilhado. Ainda por cima, ver seu filho, criado com toda dificuldade e esmero, escolher um lado, o lado errado. João da Silva levantou-se a custo, doía-lhe todo o corpo. Ele entrou em casa, abriu o armário e apanhou uma coisa que há muito guardava no fundo de uma gaveta, quando se ergueu novamente pode se olhar no espelho, o olho roxo e inchado, as marcas de sangue seco em toda a face, os cabelos desgrenhados. Ele voltou para a rua, foi atrás do filho e o encontrou numa esquina dessas fumando um baseado com seus colegas. De longe ele reconheceu o líder da matilha, aquele que lhe bateu com mais crueldade, que lhe insultou das maneiras e com as palavras mais vis. Já ouvira falar dele, de sua fama, mas enquanto seus caminhos não se cruzaram, para ele tanto fazia o que se passava na vizinhança, afinal, o que importava era trabalhar, sustentar a família, viver com honra.
O bandidinho olhou aquele pedaço de carne ali em pé olhando para ele e sorriu com deboche. João tinha uma das mãos para trás do corpo, a outra na frente na barriga em uma tentativa de conter a dor que provinha dela, de suas costelas provavelmente quebradas. Ele mancava, tinha as roupas sujas de sangue e lama, era uma farrapo humano. Disposto a lhe dar outra “lição” o tal mal afamado caminhou decidido para cima de João da Silva, Richard desta vez abaixou a cabeça, não queria ver se repetir a cena que a pouco presenciara e que provavelmente o assombraria por muito tempo depois. Antes que desse o terceiro passo, João sacou revolver calibre 38 que trazia atrás dele e deu quatro tiros no peito do sujeito. Um vulto se deslocou em seguida da direção de João que sem pestanejar atirou nele também. Não queria ser outra vez surrado por um vagabundo. Entretanto, o vulto era Richard que arrependido ia na direção do pai, tencionava protegê-lo, quem sabe abraça-lo, mas tombou morto quase aos seus pés. João da Silva olhou para o corpo sem vida do filho, de novo não lhe vieram lágrimas, ele olhava para baixo mas parecia olhar para um buraco sem fundo, olhava para além de si mesmo, para um nada que tomava conta do seu ser. Ele hesitou, olhou para o céu, deu duas piscadas enquanto algumas gotas de chuva lhe molhavam o rosto. Então ele em um movimento mecânico, levou a arma até a boca e disparou a última bala que lhe restava, afinal, trabalhar para quê se não restava mais a quem sustentar, a quem dedicar o suor do seu rosto e seus dias de labuta. Viver para quê se não havia mais valores para se preservar.


Quem conta um conto aumenta um ponto #4


Eternos 
Queen Hady

 (Conto postado no NYAH)

O sangue escorreu pelo carpete, sujando-o. Os lábios de batom vermelho cereja, abriram um sorriso mordaz e casualmente continuou a beber seu dry Martini, observando com uma frieza calculada sua vitima moribunda.
O casaco cinza foi deixado sobre o cabide, sapatos foram retirados, silencioso, atravessou o hall e bagunçando o cabelo caminhou em direção à sala de estar.
A lareira estava acessa, e ele pensou em ficar lá por alguns minutos, afastar o frio do inverno rígido lá fora. O corpo estava lá, o pescoço cortado, o batom borrado. O rosto antes belo marcado pelo rastro de unhas furiosas.
Fúria.
E então o pânico.
Chorando ele caiu de joelhos ao chão, levando o corpo da amada para junto de si. Soluçando, desesperado, gritando por Deus, temendo pelo diabo.
— É sua culpa. – Diz a voz rouca, a face oculta pela sombra da escuridão, um brilho pálido de luz iluminando sua silhueta.
Ele encara a face pálida, o batom impecável, o vestido negro e o sapato vermelho. O cabelo preto bagunçado ao seu redor. Uma louca. Uma mulher. Bela, fatal, mordaz e com tanto medo de ser esquecida, que cometeria uma loucura antes que seu rosto fosse esquecido da memória dele.
— Eu não queria nada disso – Ele responde ainda chorando.
— Destruí-la? Jurar-lhe amor? Engana-la? Você tinha a escolha e mesmo assim veio a sua cama.
— NÃO É MINHA CULPA – Gritou ele, mas nada lhe foi respondido no vazio. — Ainda está ai? – Pergunta confuso.
A lua se aproxima. Seu brilho falso e pálido, roubado das estrelas, novamente ilumina uma silhueta feminina que se faz presente no cenário.
— Vamos fechar a cortina, encerrar o ato. Preferir à eterna ignorância a resposta de nossos atos... Ou se tivermos coragem espiar atrás dos bastidores.
— Do que falas?
— Do amor e da morte. A vida é como um palco, a morte encerra o ato encenado, o amor forjado e mascarado de herói, quando se é o vilão.
— Você, foi você que a matou.
— Você é tão culpado quanto eu. Quando ela ergueu a faca foi seu rosto que lhe veio à memória, foi seu nome que chamou... Foi por você que implorou.
— Não me trate como o culpado.
— Sabes que é. É a chama, e ela como uma tola mariposa se deixou atrair, apenas para ter suas asas queimadas.
— Eu a amei.
— Em um tempo tão efêmero que poderia se passar em um mísero segundo.
— Eu... Eu, eu iria reencontrá-la novamente. Poderíamos ser felizes, tentar mais uma vez.
— Veio tarde. – Responde a voz feminina com as lágrimas começando a escorrer entre os seus lábios, o gosto salgado em sua boca. — Veja o que me fez fazer... Eu estou morta – Diz enfurecida a fantasma. — Por lhe amar, me suicidei, por desejá-lo meu espírito permaneceu aqui... Esperando por seu retorno.
Ele deposita o corpo cuidadosamente sob o carpete e com passos firmes se aproxima, tenta beijá-la, mas ela não está lá. Apenas seu espírito, sua presença.
— Deixe-me unir a você – Ele pede com os olhos tristes.
Ambos choram.
É assim que deveria ter sido? Era esse o destino? Se amarem até se destruírem e ao se destruírem se amarem?
— Já é tarde.
— Não, não é.
Ele retira a faca da mão esquerda do corpo de sua amada e, encarando seu pálido espírito, perfura seu coração.
Estariam juntos para sempre.
Eternos amantes.
Eternos solitários.
Eternos.

Quem conta um conto, aumenta um ponto #3


Once Upon a Time 
Queen Hady

 (Conto postado no NYAH)

Vamos começar essa história com Era uma vez... Afinal é assim que todos os contos de fadas começam, não?
Ok! Então lá vamos nós.
Era uma vez uma menina triste, num mundo triste que via o mundo através da janela de seu quarto e era por essa mesma janela que ela imaginava um mundo muito além daquelas quatro paredes. Era por aquela janela que entravam e saiam seus sonhos.
Seu nome era Estela, tal como as estrelas, costumava dizer sua mãe. “Você é minha pequena estrelinha” e então depositava um beijo em sua testa e a cobria para o inicio da noite.
Estela costumava sonhar e imaginar.
Sonhava que correria por entre os planetas tendo as estrelas como suas amigas e acostumavam apostar corridas usando cometas. Pulava de um planeta para outro como se fosse pula-pula e o universo seu grande parque de diversões. Quando tinha fome as estrelas lhe traziam um torrão de açúcar, pão e um copo de leite.
Imaginava que seu cobertor na verdade era um grande manto de feito com pedaços do céu e seu travesseiro era a lua. Para iluminar a escuridão havia as estrelas sempre brilhando por cima de sua cabeça.
Seu corpo estava preso naquela cama, imóvel como uma pedra, incapaz de atender aos seus chamados para sair e brincar. Suas pernas não lhe obedeciam, teimosas elas pareciam não escutar quando ela as ordenava para se mexer.
Sentia falta de correr e brincar com as outras crianças, ás vezes ficava furiosa e queria brigar com o mundo. Tinha chorado tanto de início após o acidente. Quis usar suas pernas para sair correndo para longe daquelas paredes brancas, longe de tudo... Mas estava presa a sua cama.
Chorou por muitas e muitas noites, até que já não tinha mais forças nem mesmo para isso. Recusava-se a comer, falar... Era como um zumbi.
Tinha apenas dez anos. Queria ser como qualquer outra garota. Queria ir à escola, pentear, sozinha, seus próprios cabelos. Queria ir até a cozinha e comer com seus pais e não comer sozinha no quarto.
Queria correr até ficar sem fôlego porque poderia voltar a respirar sozinha depois. Mas agora até para respirar precisava daquelas estranhas máquinas a sua volta.
Queria crescer e ser convidada para um baile, então quando ela descesse as escadas com um lindo vestido ele olharia para ela e diria que ela estava linda. Seus pais tiraram milhares de fotos e naquela noite ela daria seu primeiro beijo.
Mas ela tinha perdido tudo isso. E era tão triste.
Foi quando ouviu uma noite sua mãe chorando baixinho atrás da porta de seu quarto, ela não queria que sua mãe chorasse, não queria que ela sofresse. E então tinha obrigado a si mesma a sorrir, comer e falar – mesmo com dificuldade – porque queria ouvir sua mãe e seu pai sorrirem felizes novamente.
Não havia lhe sobrado muitas coisas, do mundo lá fora então... Tudo que havia restado era a imagem vista por sua janela, mas era aquela janela que lhe permitia sonhar e imaginar.
Suas pernas e corpo não lhe obedeciam, mas sua imaginação estava mais viva do que antes. Poderia imaginar o que quisesse.
Poderia ser uma feroz guerreira de um reino mágico e combater um grande dragão que não passava de uma árvore que observava pela janela. Poderia ser uma princesa presa a uma torre esperando que algum príncipe subisse até seu quarto e lhe despertasse com um beijo a resgatando e a levando para longe dali.
Poderia imaginar suntuosos jantares em que criaturas mágicas do mundo todo se sentavam a mesa para comer junto dela.
Ás vezes ela ficava acordada por horas à noite olhando as estrelas e se imaginando lá... Junto delas. Brincando para sempre no universo. E ela sorria. Queria ser uma estrela.
Em seus sonhos as estrelas eram garotas como ela. Que também queria brincar, rir e se divertir.
Não havia limites para sua imaginação. Não havia obstáculos que não poderia transpor.
E assim se passavam as horas, os dias, as semanas, os meses. Através daquela janela seus sonhos eram alimentados, sua criatividade crescia.
Uma noite ela imaginou que tinha finalmente virado uma estrela. Ficou assustada de inicio, queria voltar para seu pai e sua mãe, para a Bisa que sempre vinha lhe visitar mesmo com as pernas cansadas e o corpo pesado pelo tempo.
Então uma estrela lhe estendeu uma das mãos e apontou em direção ao horizonte e ela sabia que papai e mamãe ficariam bem... Ela nunca se esqueceria deles e sabia que nem eles a ela.
Rindo aceitou a mão que lhe era oferecida e cavalgou até o pôr do sol.
No dia seguinte quando sua mãe entrou em seu quarto seu coração já não mais batia, mas tinha um sorriso em seus lábios, o olhar fixo no céu.
Ela ficaria bem.

FIM


Quem conta um conto, aumenta um ponto... #2


Segunda-feira Negra 
S.M. Oliver


 (Este conto foi publicado na Antologia Sombras e Desejos)


O primeiro dia de aula da semana seguia-se arrastado com um discurso monótono sobre as guerras mundiais. Benjamin coçou o queixo e bocejou antes de cruzar os braços em cima da mesa e apoiou a cabeça. Não estava se importando se a professora iria chamar a sua atenção ou não. Sentiu um olhar sobre ele, e apenas virou a cabeça o suficiente para seus olhos enxergarem Lia. A menina mais gata do terceiro ano. Ela sorriu, para sua surpresa. Ele correspondeu, mas seu sono foi maior e por fim enterrou a cabeça nos braços novamente.  
O sinal tocou e Lia foi a primeira a se levantar. Levou com ela sua mochila e foi até o banheiro. Lavou o rosto e retocou a maquiagem para a próxima aula. Estava pensando em Ben, o garoto que sempre dormia na aula. Ele até que era bonitinho...  
Quando acabava de se maquiar, as luzes piscaram duas vezes até se apagarem de vez. Então ouviu um som ensurdecedor vindo de fora e teve que tapar os ouvidos. Aquele não poderia ser o habitual sinal para voltarem à classe. Parecia que seus tímpanos estourariam com aquela onda sonora. Soltou um grito, e agachou-se no chão. Depois de mais alguns segundos, o barulho parou. Ela respirava ofegante, e percebeu que o som a deixara zonza. Foi se arrastando até a porta do banheiro e a abriu. Colocou o rosto para fora, só havia a luz das janelas que ainda iluminavam parcialmente o lugar e se levantou de um salto quando percebeu que não havia ninguém nos corredores. O que era extremamente estranho. Haveriam se escondido do barulho? 
- Olá? - ela chamou. - Sabem o que aconteceu?  
Mas ninguém respondeu. Ben acordou sobressaltado, e percebeu que estava sozinho na sala. Esperou os colegas voltarem, mas nada... Então decidiu sair e ver se por acaso a aula havia terminado, mas encontrou a escola completamente vazia e escura para àquela hora.  
Correu até a janela, e viu o céu estranhamente cinzento, quase negro, e ainda eram quatro da tarde. Foi até o corredor, tentando se acostumar com a falta de luz e correu até a sala do diretor, mais uma vez ninguém foi encontrado. Voltou depressa para sala, quando trombou em alguém.  
- Lia? - disse ao ajudá-la a se levantar.  
- Ben! - ela quase gritou e foi abraçá-lo. - Eu achei que todos estivessem sumidos! O que está acontecendo?  
- Eu não sei... Mas acho melhor sairmos daqui, eu te levo no meu carro.  
Ele correu até a mesa do professor e pegou uma lanterna, que os guiou até fora do colégio onde estava o carro dele, uma pick-up velha e cinza. Entraram no carro e ele girou a chave, fazendo um barulho muito alto no motor.  
- Cuidado! - alguém gritou, batendo no vidro da janela do motorista e assustando os dois. - Eles estão aqui...  
Era o professor de matemática. Parecia descontrolado.  
- Do que está falando? Entra no carro...  
- Não tem como se esconder - ele continuou com a voz insana. - Sabia que chegariam...  
Lia estava muito assustada com a atitude do professor.  
- Professor, entre no carro. - Benjamin pediu.  
- Acabou... Não podemos escapar... Não se engane Ben, nem tudo que parece é... Eles... Eles não têm rostos... Alimentam-se de você... Não olhem nos olhos...  
Nesse momento, Ben teve certeza de que o professor estava louco, mas não teve tempo para pensar. Avistou pelo espelho lateral uma enorme escuridão que se formava no horizonte, uma névoa negra, vinha em direção à estrada rapidamente. E apesar de estar assustado, não pensou duas vezes, pisou no acelerador e arrancou com o carro, fazendo os pneus cantarem na estrada, deixando a figura do homem ensandecido para trás. Pelo retrovisor assistiu o professor sendo alcançado pela estranha fumaça, e sentiu um frio na espinha.  
- Ah meu Deus, vamos morrer não vamos? - Lia abraçava seu próprio corpo.  
- Calma vai dar tudo certo - ele disse, até para convencer a si mesmo. - Moro numa fazenda a dois quilômetros daqui. Tem um velho celeiro, e uma casa embaixo dele. Lá tem bastantes suprimentos, remédios, camas, lampiões e querosene. Se tivermos que ficar escondidos até essa escuridão passar isso vai servir. Meu avô construiu na época da guerra, se caso viesse para esses lados. Acho que agora tudo faz sentido. Tipo coisa que devia acontecer sabe?  
- Não, não sei.  
Quando chegaram à fazenda, Lia segurou nas mãos de Ben e apertou com força. Ele se afastou e soltou-se, correndo em direção a casa, gritando por seus pais.  
- Ben, não! Olhe!  
Benjamin caiu para trás ao ver a nuvem espessa e negra que cobria sua casa.  
- Venha, não podemos ficar aqui, Ben!  
Lia o ajudou a levantar-se e ambos correram em direção ao celeiro. Mas ele parecia estar a quilômetros de distância. E enquanto isso, a escuridão cobria rapidamente toda a fazenda.  
Ben escancarou o portão do celeiro, e correu até a tábua de madeira que servia como porta do esconderijo subterrâneo. Conduziu Lia, quase a jogando para dentro. Soltou um gemido quando viu a fumaça negra alcançar o portão do celeiro. Então avistou a espingarda pendurada junto às ferramentas do pai, a alguns metros dele. E em tão poucos segundos tinha uma decisão a tomar. 
- Anda Ben, não!  
Com cinco passos alcançou a arma, e sentiu o vapor chegando quando finalmente se enfiou no esconderijo. Olhou uma última vez para a escuridão que se aproximava, estendeu o braço, alcançou a porta e a puxou para baixo. Mas não antes de sentir a névoa tocar sua pele, e gritou de dor assim que trancou o esconderijo por dentro.  
- Você está bem?  
- Acho que sim - disse ofegante.  
Os dois se olharam por um longo tempo, imaginando certamente, que agora só tinham um ao outro.  
Passaram os primeiros dias quase em total silêncio, ainda assustados demais para falar sobre o que havia lá fora. Não imaginavam se era um acontecimento somente na cidade ou em mais algum lugar. Por ora, estavam seguros. Havia um banheiro e a água funcionava. Os suprimentos dariam para meses. Mas ambos não cogitavam aquela possibilidade. E eles se perguntaram intimamente o que realmente estava acontecendo? Quem ou o que provocara aquela escuridão? Ben decidiu que o que quer que fosse, o enfrentaria em breve.  
Aos poucos começaram a falar, coisas fúteis e bobas, detalhes da vida de ambos, tentando esquecerem-se da escuridão. Mas mesmo assim Lia parecia muito triste, e Ben pensou que estava enlouquecendo, pois ouvia constantemente a voz de sua mãe lhe chamando. Mas algo dizia no fundo de sua mente que não era ela.  
No dia quinze abrigados ali, nada parecia fazer sentido, e eram ouvidos muitos barulhos e ruídos por todo celeiro. Os dois estavam muito assustados.  
- O querosene acabou - Ben anunciou. - Vou ter que buscar lá me cima.  
- Você não vai me deixar sozinha - ela logo falou.  
- Não vou demorar...  
Ela se levantou, dando sinais de que não iria mudar de ideia.  
- Fique atrás de mim - ele cedeu contrariado.  
Lia concordou com a cabeça, e com cuidado Ben carregou a espingarda e destrancou o esconderijo por dentro. Subiu a madeira com cuidado, e enxergou a escuridão.  
- Está escuro... Mas a névoa sumiu... - Lia observou.  
Poucos segundos depois estavam do lado de cima, impressionados com a visão ao redor. Estava escuro, mas havia claridade no céu. Era de manhã provavelmente, era como um dia de muita chuva, só que com o dobro de escuridão. O celeiro estava destruído, com apenas uma das paredes de madeiras de pé. Ao longe avistaram a casa de Ben, completamente destruída.  
- Precisamos tentar sair daqui. - disse Ben.  
- Olhe o carro.  
Ben olhou em direção onde ela apontava, e viu que seu carro estava em baixo de uma parte de madeira, provavelmente do celeiro.  
- Não podemos mais ficar aqui. Vamos embora.  
- Pra onde? Nessa escuridão? Eu estou com medo! E não vou sair da cidade sem encontrar meus pais e minha irmã.  
Ben não disse nada, apenas caminhou com cuidado até o carro, mas Lia parou de repente.  
- Lia... - Ben não havia chamado por ela... De quem seria aquela voz sombria? Ele pensou. - Lia... Estou aqui.  
- Lara? - Lia chamou desesperada.  
Ben ficou perplexo, como Lia podia pensar que aquele sussurro fantasmagórico era de sua irmãzinha?  
- Lara, onde você está?  
- Aqui...  
Ambos olharam em direção a única parede de pé do celeiro. A voz parecia vir de lá.  
- Lia, não é sua irmã.  
Mas Lia parecia não ouvir nada além daquela voz estranha, que soava estranhamente como a doce voz de sua irmãzinha aos seus ouvidos.  
Lia caminhou devagar em direção à voz, e Ben a seguiu cauteloso, sabendo que nunca poderia impedi-la.  
- Socorro...  
- Lara! - Lia saiu em disparada, e Ben tentou segurá-la pela cintura, mas ela se soltou e correu para o celeiro novamente, onde desapareceu do seu campo de visão. Benjamin ouviu algumas gargalhadas e concluiu que devia estar mesmo louco. Elas vinham de todos os lados, e ele apontava a espingarda em todas as direções, como se isso fosse fazê-las parar.  
- O que querem seus desgraçados?! - ele bradou, antes de atirar no primeiro vulto que viu. - Apareçam! - Mais um vulto, e mais um tiro.  
Benjamin recarregou a arma, e sentia o suor escorrer em seu rosto, apesar de estar muito frio.  
- O que querem? - dessa vez ele sussurrou.  
Foi quando ele finalmente viu algo se mover atrás da parede de pé. Uma sombra, um vulto, tomando uma forma estranha, indistinta. Ben teve que cerrar os olhos para assimilar o que estava vendo, e por certo acreditava estar delirando.  
- Onde está Lia? - ele perguntou à coisa que se aproximava. - Pare, ou eu atiro!  
Apesar de não poder enxergar direito o que era, o único ponto evidente eram dois círculos brilhantes no lugar onde seria a cabeça de uma pessoa normal. Então ele lembrou-se naquele momento de algo muito importante:  
"Não se engane Ben, nem tudo que parece é... Eles... Eles não têm rostos... Alimentam-se de você."  
Sem pensar duas vezes, Ben apertou o gatinho e atirou naquela coisa disforme, que caiu no mesmo instante.  
Ben correu até a coisa em que havia atirado, pronto para colocar mais uma bala dentro daquele ser negro. Seus olhos foram se acostumando à escuridão, e então ele pôde ver o que na verdade estava ali no chão.  
- Lia... - ele sussurrou com a voz embargada. - Não, não... Não!  
Ben caiu de joelhos e segurou Lia nos braços, sentindo um terrível ódio de tudo e de si mesmo. A bala acertara a barriga, e ele infelizmente a viu agonizar até a morte, em seus braços.  
"Acabou... Não podemos escapar... Não se engane...".  
Ben sentiu o ar mais frio se aproximando e só teve tempo de olhar para cima. Bem ali, a centímetros de seu rosto, os círculos brilhantes, o rosto sem forma, o mistério que ele nunca chegaria a revelar. E teve vontade de perguntar o porquê. Mas os círculos se iluminaram uma última vez e Ben sabia o que viria a seguir. Nenhuma resposta seria dada. E o fim era tão estúpido e sem sentido como o início.  
"Não olhem nos olhos...".  
De repente sua visão ficou escura... Era só escuridão... Como tudo havia começado.

FIM



Quem conta um conto, aumenta um ponto... #1


  "A Menina, o Porão e o Silêncio"
 S.M. Oliver

 
 (Conto publicado na Antologia Amor e Morte)

Era primavera e como de costume a menina brincava do lado de fora da casa. E desta vez subira no balanço que ficava pendurado no carvalho que havia no seu quintal. Já era grande o suficiente para fazê-lo sozinha, quatro ou cinco anos.

Bondade Solúvel

Um conto de Rô Mierling...*



Selena era uma moça boa, muito boa para todos. Ajudava seus amigos em tudo que podia, estava sempre pronta a estender a mão. Era uma boa cozinheira, boa mãe, boa dona de casa e boa cidadã. Até que ela conheceu o Sérgio. Ele também era um rapaz muito bom, mas numa noite fatídica ele emprestou o carro para uns amigos, que praticaram um assalto, a polícia chegou até ele pela placa do carro e ele foi preso, cumprindo uma pena de sete anos de cadeia.

Na prisão, Sergio não mais queria ser um rapaz bom, ele foi torturado, humilhado, passou fome e dor. E quando saiu da cadeia era Mano Tom e não mais o doce Sergio. Ele agora dirigia uma gangue de viciados que ele treinava para roubar e se fosse o caso até matar. Ele aprendeu de tudo na cadeia e agora ira colocar seu aprendizado em prática.

Numa tarde de muito sol ×Mano Tom foi levar a sobrinha no parquinho e encontrou ×Selena com seu filho de dois anos. Olharam-se, desejaram-se e em menos de dois meses se casaram. Mas Mano Tom não tinha contado a Selena o que ele fazia. Contou depois do casamento, Selena não disse nada. Para ela casamento era para toda a vida e se ela podia ser boa com estranhos também deveria ser boa com o homem que amava. Selena passou a ser uma boa informante do tráfico, uma boa motorista de fuga e uma excelente atiradora quando era preciso.

*Conto premiado na categoria mini-contos no Prêmio LiteraCidade.
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